Nosso último vídeo no Youtube gerou várias reflexões importantes por parte de nossa audiência tão sensível e desperta. Por isso, resolvi expandir o conteúdo num artigo que reflete extamente o que eu penso sobre esse movimento reptilício e sinistro dos últimos anos, relacionado à infância.
Há uma mudança profunda acontecendo na forma como olhamos para crianças e adolescentes – e ela é tão silenciosa que parece “natural”. Em nome do cuidado psicológico, da prevenção do suicídio, do bem-estar escolar e da eficiência educacional, estamos aceitando algo muito sério: a ideia de que a mente infantil é um objeto a ser medido, classificado e corrigido por sistemas externos – muitas vezes digitais, automáticos e impessoais.
Este texto não é sobre números nem sobre repetir estatísticas já conhecidas. É sobre o que está por trás delas. É sobre a cultura que torna “normal” um mundo em que crianças são mais monitoradas do que escutadas, mais avaliadas do que acolhidas, mais medicadas do que compreendidas.
E, principalmente, é sobre soberania interior: quem tem o direito de nomear o que é um sentir “saudável” em uma criança?
1. A troca silenciosa: experiência viva por protocolo
Estamos trocando algo muito sutil sem perceber: a experiência direta com a criança por protocolos que dizem o que devemos observar nela.
Antigamente (e nem faz tanto tempo assim), um professor, uma avó, um pai prestavam atenção em gestos, olhares, brincadeiras, silêncios. A leitura era subjetiva, imperfeita, mas profundamente humana. Hoje, cresce uma outra lógica: checklists, escalas, testes, apps, formulários.
O problema não é ter instrumentos de apoio, mas quando:
- O protocolo passa a valer mais que a intuição do adulto que convive com a criança.
- A “nota” de um questionário passa a determinar se aquela criança “tem algo” ou “é normal”.
- A visão de saúde é reduzida ao que cabe em critérios externos.
Quando isso acontece, um deslocamento perigoso ocorre: o adulto deixa de ser um guardião da criança para virar um executor de critérios definidos por fora – por instituições, empresas, diretrizes, manuais.
E a criança deixa de ser um ser em desenvolvimento para virar um “caso”, um “perfil de risco”, um “potencial transtorno”.
2. O novo vocabulário do controle: cuidado, bem-estar, prevenção
O controle moderno não se apresenta como autoritário. Ele se veste de cuidado.
- Não se diz “vamos controlar sua mente”; diz-se “vamos cuidar da sua saúde mental”.
- Não se diz “vamos vigiar seu comportamento”; diz-se “vamos garantir seu bem-estar”.
- Não se diz “vamos rotular você”; diz-se “vamos te ajudar a entender o que você tem”.
As palavras são bonitas, mas precisamos fazer uma pergunta sincera: que tipo de cuidado infantil estamos normalizando quando:
- Crianças são continuamente avaliadas, testadas, classificadas?
- Emoções comuns da infância são tratadas como possíveis sintomas?
- A resposta automática à diferença é: encaminhamento, laudo, medicação?
Cuidado verdadeiro liberta, amplia, fortalece. Controle disfarçado de cuidado estreita, enquadra, condiciona.
É sutil, porém crucial: estamos criando uma cultura em que a criança aprende desde cedo a desconfiar do próprio sentir e aguardar validação externa para saber se está “tudo bem com ela”.
3. Da variabilidade à patologia: quando ser criança vira “problema”
Infância é, por definição, um território de extremos:
- Tem dias de euforia e dias de apatia.
- Tem fases de falar demais e fases de se calar.
- Tem momentos de explosão e momentos de recolhimento.
- Tem épocas de grande concentração em algo que ama e de desinteresse por quase todo o resto.
Isso não é falha: é desenvolvimento.
A medicalização silenciosa aparece justamente quando essas variações normais passam a ser lidas como “suspeitas”:
- A criança que fala alto e gesticula muito: “hiperativa?”
- A que prefere observar ao invés de participar: “tímida demais?”
- A que chora com facilidade: “fragilizada?”
- A que não se adapta à rotina escolar rígida: “transtorno?”
A lógica do diagnóstico tem um risco: ela pode transformar o que é apenas um traço de personalidade, uma fase, ou uma resposta a um contexto, em algo visto como defeito interno.
E com isso, em vez de perguntarmos “o que está acontecendo ao redor dessa criança?” passamos a perguntar “o que há de errado nela?”.
Quando o foco se desloca do contexto para o indivíduo, o passo seguinte é quase automático: “como consertar?”.
4. A escola como laboratório emocional
A escola, que poderia ser um espaço de experimentação humana, está sendo gradualmente tratada como um ambiente de controle emocional e comportamental.
Em muitos lugares, a escola:
- Observa e registra tudo: comportamento em sala, reações emocionais, interação com colegas.
- Preenche relatórios detalhados sobre “dificuldades”, “ajustes necessários”, “risco”.
- Encaminha para profissionais com base em parâmetros gerais, muitas vezes sem considerar história de vida, cultura, espiritualidade da família ou visão de mundo.
Aqui há um ponto delicado: sim, a escola pode identificar sinais importantes de sofrimento; sim, professores muitas vezes são os primeiros a perceber que algo não vai bem. Mas isso é muito diferente de transformar a escola em uma espécie de “filtro de normalidade”.
Quando a instituição assume o papel de definir o que é comportamento adequado, emoção aceitável e reação correta, ela começa a funcionar como um aparelho de padronização psíquica.
E crianças que não cabem bem no molde – as mais intensas, as mais silenciosas, as mais questionadoras – tornam-se rapidamente “casos”, “dossiês”, “planos de intervenção”.
5. A cultura do sintoma: nomear não é, necessariamente, libertar
Há uma crença muito difundida hoje: “dar nome ao que a criança tem é libertador”. Às vezes é; muitas vezes não.
Por um lado, um diagnóstico bem feito pode:
- Trazer alívio (“não sou louco, existe um contexto para o que sinto”).
- Direcionar apoio específico.
- Proteger de rótulos morais (“preguiçoso”, “problemático”, “difícil”).
Por outro lado, o excesso e a banalização dos diagnósticos podem:
- Fixar a identidade da criança em uma etiqueta (“eu sou isso”).
- Limitar as expectativas dela sobre si mesma.
- Servir de justificativa para qualquer coisa (“ele é assim porque tem tal coisa”), ao invés de estimular desenvolvimento.
Um rótulo pode ser um degrau ou uma gaiola. Depende de como é usado, de quem o recebe, de quem o aplica.
E aqui entra a intencionalidade: estamos usando diagnósticos para ampliar a consciência ou para reduzir a complexidade da criança a uma categoria?
6. O poder silencioso dos algoritmos sobre a subjetividade
Sem repetir exemplos específicos, vamos olhar para o princípio: quando sistemas digitais começam a “ler” emoções, eles precisam transformar vivências humanas em dados.
Como um algoritmo “conhece” uma criança?
- Através de palavras digitas, padrões de uso, interações.
- Através de respostas a perguntas pré-definidas.
- Através de comparações com bancos de dados de milhares ou milhões de outros usuários.
Para isso, emoções precisam ser codificadas. E tudo que é codificado pode ser:
- Classificado (quem foge do padrão vira ponto de atenção).
- Previsível (quem tende a reagir de tal forma).
- Perfilado (quem se encaixa em determinados grupos de risco ou de consumo).
Quando aceitamos que a leitura automatizada da experiência interna de crianças seja algo trivial, estamos abrindo mão de algo precioso: o direito ao mistério, à opacidade, à interioridade não rastreável.
Criança precisa de um espaço onde possa sentir sem ser medida, pensar sem ser julgada, extravasar sem ser marcada como “potencial risco”.
7. O esquecimento do corpo, da natureza e do espiritual
Há uma dimensão da medicalização silenciosa que raramente é discutida: o que é que não estamos oferecendo às crianças quando corremos tão rápido para explicar tudo via diagnóstico?
- Não estamos perguntando sobre a qualidade do sono, da alimentação, da relação com a tela, do tempo ao ar livre.
- Não estamos olhando para a quantidade de afeto, presença e vínculo real no cotidiano.
- Não estamos considerando que o ser humano tem camadas sutis – intuitivas, energéticas, espirituais – que não se encaixam em formulários.
Uma criança hiperestimulada por telas, isolada em ambientes artificiais, pressionada por desempenho e privada de tempo livre, vai naturalmente reagir com inquietação, ansiedade, explosões emocionais. E, em vez de ajustar o ambiente, muitas vezes pensamos em ajustar a criança.
Além disso, muitas crianças e jovens têm percepções mais amplas, sensibilidade acentuada, intuição viva. Em contextos materialistas, isso costuma ser lido como fragilidade ou desajuste – quando, em outra visão, poderia ser reconhecido como sensibilidade ampliada, potencial de consciência, capacidade de ler o invisível das situações.
O problema é quando qualquer intensidade é automaticamente lida como “excesso a ser contido”, e não como potência que precisa de orientação e canalização.
8. Soberania psíquica: um conceito que precisamos resgatar
Soberania psíquica é a capacidade de uma pessoa:
- Reconhecer o que sente.
- Nomear suas experiências internas a partir de dentro, não apenas a partir de rótulos prontos.
- Participar ativamente das decisões sobre sua mente, seu corpo, seu tratamento.
Na infância, essa soberania ainda está nascendo. Por isso, ela é, em parte, delegada aos adultos à volta: pais, mães, responsáveis, educadores. Esses adultos são (ou deveriam ser) guardiões dessa soberania, não substitutos dela.
Quando:
- Uma criança é encaminhada, avaliada, rotulada e medicada sem que a família compreenda profundamente o processo.
- Decisões sobre a vida emocional da criança são tomadas em reuniões técnicas fechadas, com pouco espaço para a narrativa da própria criança e de seus cuidadores.
- A autoridade final passa a ser o laudo, o parecer, o protocolo.
Então, a soberania psíquica da criança está sendo deslocada para estruturas externas.
E esse é o ponto mais sensível: se uma geração inteira cresce acreditando que “alguém de fora sabe melhor do que eu o que se passa dentro de mim”, estamos entregando a chave da interioridade a sistemas que nem sempre têm como prioridade a liberdade de consciência.
9. O que pais, mães, avós, educadores podem fazer na prática
Em vez de uma luta barulhenta contra tudo, o movimento mais poderoso costuma ser silencioso e consistente. Algumas atitudes concretas ajudam a reequilibrar esse cenário:
9.1. Recolocar a escuta no centro
Antes de qualquer formulário, teste ou consulta:
- Escutar o que a criança tem a dizer sobre o que sente.
- Perguntar: “como é isso dentro de você?”, ao invés de só “o que você fez?”.
- Dar tempo para ela encontrar as próprias palavras, sem apressar, sem interpretar tudo no lugar dela.
Ser escutado profundamente é um dos maiores antídotos contra o sentimento de “eu sou um problema”.
9.2. Diferenciar sofrimento real de desconforto de desenvolvimento
Nem toda dor é patologia; mas nem todo sofrimento deve ser romantizado. Há sinais de alerta que pedem ajuda profissional, e ignorá-los também é violência.
O que podemos cultivar é discernimento:
- Se a criança está sofrendo a ponto de não conseguir viver aspectos básicos do dia a dia (comer, dormir, brincar, aprender minimamente), é hora de buscar ajuda.
- Mas se está apenas reagindo a um ambiente hostil, rígido, acelerado demais, talvez a intervenção precise ser no contexto, não nela.
Buscar ajuda não é o problema. O problema é quando a ajuda encontrada fortalece apenas o enquadramento, em vez de ampliar as possibilidades.
9.3. Incluir a criança nas decisões sobre ela mesma
Mesmo pequena, a criança pode:
- Saber por que está indo a um profissional.
- Opinar sobre o que ajuda e o que não ajuda.
- Perguntar e receber respostas honestas e adequadas à idade sobre remédios, tratamentos, avaliações.
Isso fortalece a autonomia interior e ensina, desde cedo: “a minha experiência importa”.
9.4. Valorizar práticas que cultivem presença, e não apenas desempenho
Algumas experiências simples são profundamente reguladoras para o sistema emocional da criança:
- Contato com natureza (terra, água, árvores, animais).
- Atividades criativas sem objetivo de resultado (desenhar, dançar, inventar histórias).
- Silêncio compartilhado, aconchego sem exigência de fala.
- Rotinas previsíveis, mas não rígidas; com espaço para improviso e escolha.
Essas práticas criam solo interno. E quanto mais solo interno, menos vulnerável a criança se torna a narrativas externas que dizem “algo em você está errado”.
10. Para além do medo: uma mudança de paradigma
Falar de medicalização silenciosa da infância não é negar a importância da psicologia, da psiquiatria, da neurociência ou de recursos farmacológicos quando realmente necessários. É questionar o paradigma que transforma qualquer desvio de um ideal estreito de normalidade em motivo para intervenção corretiva.
A transição que vivemos – seja você a nomeie de energética, espiritual, cultural ou civilizacional – tem um eixo claro: mais consciência ou mais controle.
Com crianças, isso se traduz em duas perguntas:
- Estamos ajudando-as a se conhecerem, sentirem, se regularem, se expressarem de forma autêntica?
- Ou estamos treinando-as para se enxergarem como portadoras de defeitos internos a serem ajustados para caber em um mundo desequilibrado?
A resposta não está num documento oficial, em um aplicativo ou em um laudo. Ela começa na forma como cada um de nós olha para a criança à nossa frente: como um problema a ser resolvido ou como uma consciência em expansão, que precisa de apoio para florescer?
Talvez o maior ato de cuidado que possamos oferecer às novas gerações seja este: proteger seu direito de sentir, pensar e ser de forma singular, sem que isso se transforme automaticamente em diagnóstico.
Porque uma infância que não precisa pedir desculpas por existir como é, tem muito mais chance de se tornar uma adultez que não se entrega facilmente a qualquer forma de controle.
E você, quando pensa nas crianças à sua volta (filhos, alunos, sobrinhos, pacientes ou mesmo as de convivência indireta), qual aspecto dessa medicalização silenciosa mais te preocupa hoje?
Porque eu estou mesma preocupada e logo logo estarei “ocupada” em transformar isso.
Seja Luz!
Veja o vídeo no Youtube:

