Solidariedade: parece simples, mas não é

Texto: Iara Bichara | Ilustração: Gisele Caldas

Ilustração: Giesele Caldas

Ilustração: Giesele Caldas

Estamos habituados a utilizar a palavra SOLIDARIEDADE geralmente ligando-a a um sentimento de identificação com um estado de dor, de sofrimento ou de desgraça.

O solidário coloca seus préstimos a serviço de vítimas de uma tragédia, solidariza-se com a família que perdeu um ente querido, ajuda com alimentos e agasalhos os abalados por uma guerra ou por uma catástrofe.

Pode-se dizer que, nesse sentido, solidariedade é um ato de bondade para com o seu semelhante.

Mas essa palavra também pode designar o sentimento que une os membros de um grupo em torno de interesses ou propósitos comuns. E no entendimento desse conceito, poderíamos escrever extensas laudas sobre a Solidariedade e suas diversas aplicações e interpretações, tanto na área das Ciências Sociais, quanto no campo jurídico.

Porém, o que vemos em comum é o sentido de responsabilidade que se manifesta em todas as suas utilizações.

Não é apenas limpando os armários para doar aos desprovidos as roupas que não estamos mais usando, ou aquelas que ficaram pequenas para as crianças, ou os objetos que compramos ou ganhamos e que nunca terão utilização, que executamos um ato de solidariedade.

É claro que tudo isto se transformará em benefício para alguém. Mas onde fica a nossa parte de responsabilidade nesse ato?

Somos solidários, sim, quando nos unimos em torno de um objetivo para darmos aquilo que temos de melhor em nós, sem pensarmos em retribuição ou recompensa. E o nosso melhor pode ser um abraço, uma palavra, um carinho, ou até mesmo um simples sorriso.

Também não precisamos ir muito longe para encontrar quem necessite da nossa solidariedade.

Quantas pessoas necessitadas estão ao nosso redor, mas nós não nos damos conta. Nem sempre elas vivem sós, ou estão doentes, em situações de risco de vida, de miséria, de constrangimento e tudo o mais que possa atrair a nossa comiseração. Passam despercebidas porque ocupamos o nosso tempo com “grandes” questões a resolver, deixando o restante para o campo da solução mais rápida, do inevitável ou do “sem importância”.

Quantas individualizações necessitam de uma simples conversa sobre assuntos banais, sem cobranças ou instruções. Tagarelamos muito com os bebês, esperando que aprendam logo a falar, mas depois as entregamos aos seus devaneios e fantasias. Brinquedos, televisão, jogos, escola, amiguinhos…

A correria da vida em busca de provisão e de recursos materiais, desfoca o objetivo principal da vida solidária. O cansaço e a falta de tempo limitam a qualidade da troca que deveria ser exercida entre pais, avós, tios, padrinhos, amigos e, até mesmo vizinhos. Inconscientemente, ensinamos essas crianças a serem sozinhas e até achamos muito bom que se tornem independentes. Claro, isto tira de nossos ombros a responsabilidade de nos ocuparmos e de repartirmos um pouco do nosso aprendizado. Reclamamos quando, em um extremo elas fazem estardalhaço, ou em outro se isolam, para chamarem a atenção, mas não ouvimos o seu grito de socorro!

Nós nos engajamos em ações em prol das mais diversas causas: compartilhamos pelas redes sociais as campanhas para salvar animais em extinção em cantos remotos deste planeta; divulgamos amplamente o abandono de pets e procuramos com afinco por interessados em adotá-los; repartimos milhares de mensagens motivadoras de comportamentos sadios e justos, mas estamos surdos aos apelos daqueles que verdadeiramente necessitam de nossa solidariedade.

Não importa a idade, o poder econômico ou o nível cultural, um abraço – desde que espontâneo e desinteressado – sempre causa uma sensação de aconchego. Mesmo as criaturas mais arredias, ao se deixarem abraçar, se enternecem.

Que tal se parássemos para pensar um pouquinho nas nossas ações que não são divulgadas, aquelas que ninguém vê ou aplaude, que não têm repercussão em qualquer âmbito, a não ser em nossa consciência e em nosso coração?

Talvez aí – escondida num cantinho onde não são considerados “piegas” ou “fraquezas” os gestos de carinho e afeição – more a responsabilidade da verdadeira SOLIDARIEDADE.

Seja Luz!

7 Comments
  1. Perfeito… Um mergulho em si mesmo!! gratidão!

  2. Como sempre, fantástica as suas palavras, Iara!!! Uma grande chacoalhada, para chamar a atenção das aparentes “pequenas coisas”. Adoro sempre!!! Obrigada!!! 😉

  3. Reply
    Claudia Sampaio 10/07/2014 at 2:56 PM

    Reflexão linda e necessária em texto e imagem… Gratidão, Iara e Gisele!!!

  4. Reply
    Cleusa Xavier Nogueira de Castro 11/07/2014 at 11:15 AM

    Tudo o que escreve tem muita profundidade e sabedoria. Resultado, por certo, de uma vida repleta de emoções vivenciadas sempre no Agora. Parabéns e obrigada Iara Bichara.

  5. Reply
    Monica Moreira Pereira 13/07/2014 at 4:12 PM

    Sim, a solidariedade deve ser praticada sempre,são experiências diarias de socialização com nossos irmãos , no primeiro Bom dia,vc já tem esta oportunidade ,pois todo ser do universo,merece sua atenção . Lindo Tema , Iara Bichara . Gratidão.

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