A proatividade e os pequenos gestos

Texto: Alê Barello | Ilustração: Gisele Caldas

ilustra_giselecaldas_generosidade_5 www.gisele-caldas.blogspotEu não me esqueço dos pequenos gestos.

É engraçado esse processo interno, de não fixar na memória coisas grandiosas e dramáticas, mas de poder trazer à tona os pequenos, mínimos e quase imperceptíveis – minúsculos e aparentemente menos importantes – pequenos gestos. Tenho borrões de lembrança dos dias definitivos, das grandes festas, dos rompimentos trágicos, das notícias determinantes para o resto da existência. Quanto aos diminutos, me são claros e cristalinos. Consigo resgatá-los desde sempre.

Imagine uma vida inteira arquivada em termos de pequenos gestos…

E sabe o que eles representam, para mim?

As coisas que nem faziam parte da trama mais ampla, nem dependiam de nós!

Pequenos gestos me dizem que o Universo age autonomamente, representado pelo outro.

É aquele telefonema que veio em boa hora, ou aquele sorriso que nos deu confiança. É o dia de sol quando precisávamos dele. É uma surpresa de uma mensagem num inbox, ou a panqueca do café da manhã. É também a palavra mal falada, o julgamento fora de contexto, a navalha do ataque deliberado que sempre, sempre, sempre, faz um corte pequenino e profundo, inesperado e certeiro. Não é coisa de vida ou morte, não acaba com você na hora; antes, arde todos os dias ao lavar as mãos para o almoço.

Enquanto nos dedicamos a planejar o que queremos para o momento, tem um “lá fora” trabalhando.

Nesse exato instante, quantas pessoas estão com você no pensamento? Poderíamos verificar? Quem conseguiria?

Na sequência, o movimento tem início: os pequenos gestos começam a se entrelaçar com os nossos atos e moldam toda e qualquer ocorrência. Somos mais felizes, ou menos, de acordo com a capacidade de recepção e entendimento do pequeno gesto. E são muitos, constantes, ininterruptos!

E o que a gente não planeja, estaria “planejado”?

Tenho verificado que sim, e aqui entra o fator X: pequenos gestos, que moldam a vida de todos e encaminham os desfechos mais importantes, dependem de proatividade.

Primeiro é preciso entender que há um vetor estrutural de acontecimentos, aparentemente aleatório. A natureza em ação – no pequeno, não no grande – nos concede, a cada segundo, toneladas de pequenos gestos.

Depois, há o outro, também natureza e também você mesmo, mas distinto em forma. Eu sou seu vetor e você o meu. Minhas ações têm o poder de transformar o seu mundo e vice-versa, ou quase têm… Teriam e têm quando há proatividade. Se for pedido, já faz parte do plano que nós mesmos fizemos e então, é apenas complemento, não transformação verdadeira.

Proatividade é, portanto, a mola propulsora da transformação alheia, nunca pessoal. É claro que toda forma de agir acaba por nos transformar, porém, é para o outro, externamente, que ela se revela mais poderosa e eficiente.

Fazer o que tem que ser feito, independente da vontade alheia é o tom. Quando nos vemos humanos, isso parece esbarrar no livre-arbítrio, mas pense-se macieira, pé de alface, abelha, corvo, ou água de rio: quem eles esperam para fazer o que deve ser feito? E como sabem?

Não sabem, são, esse é o segredo!

O sinal interno dos proativos tem utilidade verdadeira, não apenas real. Ele, por sua vez, é livre de dualidade, não engloba padrões de certo ou errado, de bom ou mau, de feio e bonito. É o que é. Existe porque tem que existir. Acontece porque deve acontecer.

A formiga que recolhe folhas o faz por motivos essenciais: ela nasceu para isso e não questiona. É proativa e constante. Imagine-a refletindo: “Mas eu não queria fazer isso agora… Aliás, até acho que essa trilha fica melhor com folhas, do que sem… Por que não montamos uma assembleia para decidir se vamos ou não recolhê-las hoje?”

Penso que algumas coisas podem ser escolhidas na vida da formiga. E nós, formigas de outro jeito, também temos poder de escolha e note bem: quanto ao que não é essencial.

E aí, para que nascemos?

O que nos é essencial, o que está intrinsecamente amalgamado à nossa estrutura, tão concretamente que, se não feito, causa culpa, medo, tristeza e dor? Você é carinho e é proativo quanto a isso? Você é limpeza e é proativo quanto a isso? Você é amizade e é proativo quanto a isso? Você é doação e é proativo quanto a isso? Você é alegria e é proativo quanto a isso? Você é solução e é proativo quanto a isso?

O que concluo é que, a cada vez que deixamos de ser proativos nos distanciamos da essência e por isso, recolhemos os cacos-consequências dessas escolhas. Sua tristeza, insatisfação, depressão, ausência e doença são o conjunto de todos os gestos não realizados, da proatividade represada por escolha. Por escolha? Sim! A força que temos que fazer para não sermos o que somos é muito maior do que imaginamos!

Faça o que tem que ser feito. Consulte seu coração quanto à proximidade da ação com a essência e seu papel estará sendo lindamente cumprido, em cada pequeno gesto.

A felicidade de ser o que se é representa Luz.

Seja Luz!

10 Comments
  1. Reply
    Beatrice Gasparek 29/09/2014 at 12:50 PM

    assunto instigante… mas muito bem abordado… meu coração gostou bastante!… grata por suas contribuições tão preciosas!…

  2. Em cada pequenos gestos, pode conter a semente de grandes ações em prol do coletivo… basta estarmos dispostos a agir… gratidão!

  3. Reply
    Maria Aparecida Basso 29/09/2014 at 3:29 PM

    E assim é a nossa vida ,feita de pequenos gestos que ficam gravados pra sempre e fazem uma enorme diferença .Como também as nossas escolhas.
    A felicidade de ser o que se é representa LUZ!!!

  4. Reply
    marcelle sampaio 29/09/2014 at 4:13 PM

    Bravo! Bravíssimo! que texto brilhante Ale. Gratidão por tantos aprendizados! ” A força que temos que fazer para não sermos o que somos é muito maior do que imaginamos!

    Faça o que tem que ser feito. Consulte seu coração quanto à proximidade da ação com a essência e seu papel estará sendo lindamente cumprido, em cada pequeno gesto.”

  5. Reply
    Claudia Sampaio 29/09/2014 at 5:55 PM

    “Faça o que tem que ser feito. Consulte seu coração quanto à proximidade da ação com a essência e seu papel estará sendo lindamente cumprido, em cada pequeno gesto.” – Que reflexão linda. Gratidão, Ale.

  6. Maravilha de texto, Alê querida!
    Todo gesto carregado de amor, coloca-nos em contato com o TODO!
    Aí, dá uma reação em cadeia, de retorno, dos nossos pequenos gestos! Não é possível nem contabilizar, sempre retorna uma abundância amorosa de todos os lados!
    Gratidão, pela linda reflexão!
    Abração de luz!

  7. ” … proatividade represada por escolha. Por escolha? Sim! A força que temos que fazer para não sermos o que somos é muito maior do que imaginamos!”

    Semana passada muito me reAvaliei decidindo: – Farei o que tem que ser feito inteira!
    A sintonia do Movimento e nossas vidas é linda! Gratidão!

  8. Tens razão Ale ,qdo me chamavam de louca, eu era mais feliz,acho que o juizo demais não nos faz bem ,na tentativa de agradar ,acabamos nos degradando ,fugindo de nossa essência . Ser nós mesmos ,seja como for , é que nos faz feliz.

  9. Reply
    Uiara Andriewiski 30/09/2014 at 2:28 PM

    <3

  10. Reply
    Uiara Andriewiski 30/09/2014 at 2:33 PM

    Alê minha intenção era mandar lhe um coração. Mas…não foi.

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