O medo e o aval social

Texto: Iara Bichara | Ilustração: Gisele Caldas

ilustra_giselecaldas_O_Q_FAZER_2 www.gisele-caldas.blogspot.comPertenço a uma geração nascida na década após o término da Segunda Guerra Mundial, onde ainda estava muito presente a consciência de perigo ou de ameaça, tanto resultante do estado vivido ao longo dos seis anos de conflito, quanto da guerra fria que se instalou entre as potências que então dividiram o poder, onde o terror de um ataque atômico controlava os passos da humanidade.

Essa geração também foi embalada com o “nana neném, que a cuca vem pegar, papai foi à roça, mamãe volta já…” ou com o “boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta”, herdados dos antepassados e insistentemente transmitidos adiante.

Não bastando o pavor e a fobia gerados pelas tragédias, ou o temor causado pelo desconhecido, ainda conhecemos o surgimento da apreensão e do receio sócio econômico que se consolidou nesses anos.

O assunto é muito extenso e sem a pretensão de entrar no campo da sociologia, mas apenas para dar um pequeno exemplo, podemos verificar o que aconteceu no âmbito do trato com novos tipos de comportamentos e emoções, que surgiram nesse período.

O desenvolvimento dos bens de consumo doméstico, forma originados do aproveitamento de peças para armamentos, que foram depois utilizadas em liquidificadores, batedeiras, enceradeiras (que muitos de vocês nem chegaram a conhecer).

A fabricação em larga escala dessas e de tantas outras utilidades que aumentaram a utilização de mão de obra industrial e que alavancaram o desenvolvimento econômico, trouxe consigo a preocupação constante com a manutenção do emprego, que não mais dependia de um negócio familiar – ou mesmo industrial, limitado a uma produção menor – como antigamente, mas sim de uma instituição geradora de lucros, onde o rumo orientava-se pela produtividade e pelo mercado.

A rigidez do horário, a diminuição das horas de sono, a necessidade cada vez maior de longos deslocamentos, o desafio de fazer sempre mais em menos tempo, a concorrência à mesma vaga, a superação de suas habilidades em detrimento de interesses pessoais, criou o receio desmedido que até hoje lota os consultórios especializados em todas as áreas de distúrbios, tanto físicos, quanto psicológicos.

Entretanto, essa também foi a geração que iniciou a reviravolta no “status quo” dessa época e que determinou importantes mudanças comportamentais, atravessando a barreira do medo e da imposição vigentes até então.

As situações de desigualdade, geradoras de conflitos, foram denunciadas abertamente. Tornaram-se intensos os movimentos pelos direitos civis das minorias e a contracultura questionou os valores vigentes, por vezes contestando o consumismo e o otimismo exagerado do pós-guerra (Beats), noutras valorizando o retorno a uma vida mais simples (Hippies).

Atabalhoadamente e sem qualquer referência, estes hoje senhoras e senhores, transmitiram aos seus filhos valores e bens que ainda não sabiam administrar adequadamente, mas que se esforçavam em adquirir. Permitiram-se permitir sem saber o quê e nem para quê. Reviveram uma infância que não tiveram.

Porém, mesmo sem muito sentido, tiveram a coragem de se deixar levar pelo sonho de um mundo melhor e mais harmônico.

Um macro conceito não se forma rapidamente, nem tem reflexos instantâneos. Passados 50 anos, considerando que as pressões continuam as mesmas e ainda mais sofisticadas, o único parâmetro possível de aferição é através das gerações que se seguiram, onde nossos filhos e netos correspondem ao resultado mais seguro.

No distanciamento entre os medos herdados e a dose de destemor que essa geração teve que transmitir, permanece o processo de correr atrás das inovações, cultivando o elo que una a determinação e a harmonia, sem esquecer-se de plantar a cada dia novas sementes de confiança, de força e de determinação!

Seja Luz!

4 Comments
  1. Reply
    Claudia Sampaio 04/09/2014 at 5:15 PM

    Muita sensibilidade: ” Passados 50 anos, considerando que as pressões continuam as mesmas e ainda mais sofisticadas, o único parâmetro possível de aferição é através das gerações que se seguiram, onde nossos filhos e netos correspondem ao resultado mais seguro.” – E assim com amor e esperança, prosseguimos. Gratidão, Iara! Beijos de Luz.

  2. Reply
    Claudia Sampaio 04/09/2014 at 5:25 PM

    Gratidão, Gisele – pela Imagem que nos faz refletir e tão precisa no contexto do artigo. Beijos, Irmana.

  3. Reply
    Uiara Andriewiski 04/09/2014 at 5:51 PM

    Texto que relata certinho o que passamos e como nos evoluímos…Sei que dificilmente o ser humano estaciona pois sempre acha que tem algo depois daquele morro…”será que tem um pé de manacá?”…
    Mas nossa geração, até agora foi a que mais sofreu mudanças, e turbulências e mais ainda aprendemos que mesmo com medos, desconfianças , tínhamos que nos adaptarmos rapidamente… E vencemos, pois tenho certeza que soubemos criar nossos filhos com determinação e coragem… Longe do medo e perto do AMOR…LUZ.

  4. Reply
    Monica Moreira Pereira 06/09/2014 at 2:38 PM

    Fui criada justamente neste tempo , pós hippie , de uma mãe que estudou, se formou, uma avó parteira e viuva e uma tias pertubadas pela educação deformadas e cheias de preconceito. Para minha mãe ,a religião consertava tudo,então não houve dialogo entre nós ,só muita missa e estudo. Tive pena da minha mãe , fui tudo que tive vontade e preconceito nunca fez parte da minha vida. Ela só foi me entender qdo precisou da unica filha disponivel para todos seus erros e defeitos. . Sempre acreditei que SOMOS todos UM . Eu lembro dos Eletrodomesticos , meu pai sempre trazia um dos States.

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