O Amor cabe nos menores espaços

Texto: Claudia Sampaio | Ilustração: Gisele Caldas

Ilustração: Gisele Caldas

Ilustração: Gisele Caldas

Sempre vivi em harmonia com animais. No entanto, quando bem jovem, morei uns tempos com uma família, cujo cão era imenso, e por seu confinamento, extremamente bravo, de guarda. Ele era agressivo inclusive com amigos íntimos da casa, indistintamente. Era preso ao sinal da campainha.

Nossa primeira interação foi um desastre, não sabia da existência dele, e quando o notei estava a palmos de distância na janela da casa, quase abocanhou meu rosto. Em outra, eles saíram e esqueceram os cães soltos, eu não consegui abrir a porta, e nem poderia, eles estavam matando uma galinha. Era impossível fazer algo. E ainda, numa noite, também não fui avisada da soltura dele e ele me viu, o olhar fixo e arrancada, corri como uma louca e até hoje não sei como fiz uma curva que me salvou de ser alcançada.

Sem recorrer a julgamentos, ainda não conseguia me abster de sentir fisicamente a aproximação de um cão de grande porte.  Moro num andar muito alto, e hoje, por coincidência, quando desci, um vizinho dois andares abaixo entrou com seu cachorro do mesmo porte com o qual convivi, na cabina minúscula do elevador. O cuidador simpatissíssimo nem considerou a ideia de esperar o próximo  e eu repetia para mim em pensamento: é só um bebezão, é só um bebezão, “longe do medo, perto do Amor***”. Ele me cheirou, deu a patinha. Era tímido também, talvez porque a reação da próxima vizinha a entrar seja a cotidiana na vida dele: ela deu um grito e um salto apavorados para trás.

Pensei comigo mesma, isto e tratos inadequados dos seus cuidadores justificam um bocado o temperamento de muitos deles, mais hostil ou desconfiado. É verdade que a boca me assustava, e que conseguia ouvir meu próprio coração descompassado, as pernas bambas e as mãos suadas. Porém, naquele preciso momento, me colocando no lugar daquele bebezão, senti um assomo de carinho, desejando que o dia dele transcorresse menos sobressaltado e com mais demonstrações de confiança e empatia.

A sensação posterior à abertura da porta no térreo, não era de um alívio desmesurado, mas sim de gratidão que invadiu o peito, por aquela individualização canina que me trouxe esta reflexão, experiência e evocou algo obstruído em mim pronto para ser aceito e transmutado. Ao cuidador, que nem pestanejou com algum sinal evidente de medo. E a mim mesma, por ter respirado fundo e dado um sorriso largo à entrada dos dois. Abracei a Lei da Coragem e não resisti, flui. Foi gratificante sentir o Amor dissolvendo o medo e vibrando no coração dele, no cuidador e no meu.

Isto passaria oculto ao olhar de todos, e quantas microvivências assim não nos passam despercebidas? Nunca faremos ideia do quanto um pequeno gesto (escolha) nosso pode abençoar e ser facho de Luz na vida do outro e na nossa. O medo não preenche você. Ele o esvazia não só do outro como de si mesmo. Você é Amor em cada micropartícula, e cabe em qualquer espaço ou tempo – hoje, ele não só coube num elevador apertado, como se estendeu sobre minhas lembranças e sobre o meu futuro, porque se fez PRESENTE. Sejamos este Amor. Seja Luz!

*** “Longe do medo, perto do Amor” – foi uma das primeiras expressões que aprendi no Movimento Era de Cristal. E faz a maior diferença, através dos Alinhamentos (memórias) e Exercïcio do Espaço do Coração, busque imprimi-la no seu dia a dia. É uma doce recordação.

6 Comments
  1. Há um trecho coberto pelo anúncio que insiste em não fechar, peço desculpas, posto aqui:

    Sempre vivi em harmonia com animais. No entanto, quando bem jovem, morei uns tempos com uma família, cujo cão era imenso, e por seu confinamento, extremamente bravo, de guarda. Ele era agressivo inclusive com amigos íntimos da casa, indistintamente. Era preso ao sinal da campainha.

    Nossa primeira interação foi um desastre, não sabia da existência dele, e quando o notei estava a palmos de distância na janela da casa, quase abocanhou meu rosto. Em outra, eles saíram e esqueceram os cães soltos, eu não consegui abrir a porta, e nem poderia, eles estavam matando uma galinha. Era impossível fazer algo. E ainda, numa noite, também não fui avisada da soltura dele e ele me viu, o olhar fixo e arrancada, corri como uma louca e até hoje não sei como fiz uma curva que me salvou de ser alcançada.

    Sem recorrer a julgamentos, ainda não conseguia me abster de sentir fisicamente a aproximação de um cão de grande porte. Moro num andar muito alto, e hoje, por coincidência, quando desci, um vizinho dois andares abaixo entrou com seu cachorro do mesmo porte com o qual convivi, na cabina minúscula do elevador. O cuidador simpatissíssimo nem considerou a ideia de esperar o próximo e eu repetia para mim em pensamento: é só um bebezão, é só um bebezão, “longe do medo, perto do Amor***”. Ele me cheirou, deu a patinha. Era tímido também, talvez porque a reação da próxima vizinha a entrar seja a cotidiana na vida dele: ela deu um grito e um salto apavorados para trás.
    (continua…).

  2. Bela reflexão, e novamente a imagem como um escudo de Amor, pronto para transmutar as situações de medo, em ação e amor. De fato ” quantas microvivências assim não nos passam despercebidas? ” Que bom que estamos aprendendo a rever nossas ações e reações sob nova lente, a do Amor.. gratidão

    • Reply
      Claudia Sampaio 05/09/2014 at 6:46 PM

      Gratidão, Zê… Também me lembrei da sua percepção: o escudo de Amor… Beijo grande.

  3. Reply
    Monica Moreira Pereira 06/09/2014 at 9:47 AM

    Também vivi um terror , KID era nosso cachorro, um pastor alemão , no frio de Sampa receava por ele la fora , mas ele me odiava e pesadelos a noite me tiravam o sono ,ele toda noite me mordia ,psicologos me atendiam, até que resolveram doa-lo a policia local. Um ano depois o encontrei na casa de um tio , que o tinha recolhido ,pois apanhara muito na policia,qdo eu o vi senti um olhar sofrido ,arrependido e sem pestanejar e sem medo me abracei a ele e chorei , desde então perdi o medo de cachorros . Kid faleceu um dia depois do nosso reencontro.

    • Nem sei o que dizer, Monica. Gratidão por ter compartilhado uma vivência tão intensa quanto esta. E por tê-la impregnado de transmutação e Amor. Que toda a Luz abençoe vc e ao Kid. Um abraço tímico, Querida.

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