Na encruzilhada

Texto: Gustavo Andriewiski

encruzilhadaNaquela noite, antes de deitar eu resolvi. Vou lá falar com o responsável por essa bagunça.

E lá fui eu, guitarra nas costas, até a primeira encruzilhada que encontrei. Sentei e esperei.

Ele veio, não sem demorar um bocado e não antes de eu tocar os acordes certos. Ele sabia que eu não buscava nenhum pacto que me levasse às glórias da fama, mas deve ter achado divertido ver aquele carinha parado ali querendo respostas, então apareceu.

É lógico que ele me lembrava alguém que eu conhecia.

Eu ameacei começar a falar mas ele me interrompeu:

– Por que você acha que eu vou te responder? – ele disse

– Você veio até aqui, não veio? – respondi

– Você sabe que eu não vou te atender e ainda assim você também veio até aqui.

Eu parei por um instante, apreciando a inteligência do indivíduo. Ele se virou de lado observando a estrada.

– Por que você existe? – eu segui.

Silêncio. Ok, ele não vai me responder. Mudei de tática.

– Você se parece com alguém que eu conheço.

– É porque você já veio aqui antes.

Aquilo me pegou desprevenido.

– Como assim?

Silêncio. Esqueci, nada de perguntas.

– Eu não me lembro.

– É porque eu sempre venço.

Então ele virou de frente me encarando e tomou a palavra.

– Por que você existe?

– Pra amar.

Ele gargalhou. Eu me esforcei pra não me ofender

– Você pode não acreditar mas é pra isso que eu existo. E é por amor que eu vim aqui falar com você – insisti.

– Você veio aqui pra entender o que eu ganho com isso. Com a miséria e com a infelicidade, como se eu fosse o responsável.

Não precisei de muito esforço pra admitir.

– Você tem razão!

Ele sorriu. E deu um passo atrás.

– Foi mais rápido que antes – e continuou. – Pela sua sinceridade, eu vou te explicar: a experiência que vocês escolheram requer um agente oposto. Um centro magnético que irradie constantemente energia inversa ao impulso original. Entenda bem, o impulso original não é o que você pensa, não é evolutivo, ou em direção ao que você entende como um grande e eterno ser “perfeito e bom”. O impulso original é descendente em vibração. Descendeu da Fonte em direção a mim. Vocês me buscam e me encontram. Desse encontro original surge a impressão da dualidade. Eu sou a garantia de que vocês conseguirão retornar.

Ele sorriu. O sorriso era sincero e amigo. O mais sincero e amigo que eu já tinha visto. Aí, eu me lembrei de todas as vezes que eu estive naquele mesmo ponto. E me lembrei que não era a primeira vez que ele me explicava aquilo.

– Então se a origem é a verdade, eu sou….?

– A ilusão – respondi. – A garantia de que eu vou sempre procurar retornar para a plenitude da verdade.

Ele sorriu e estendeu a mão

– Vamos?

– Aonde? – perguntei.

Ele respondeu …. e eu não percebi que esse era o sinal.

– Agora que você sabe a resposta não pode mais ficar aqui. Essa realidade não te serve mais.

Eu dei um passo pra trás.

– Não! Eu não quero deixar essa realidade, as pessoas que eu amo, as coisas que eu gosto de fazer e de sentir. Eu quero poder experimentar a vida sabendo do que você me explicou.

– Isso não é possível – ele disse.

– Se esse é o preço, eu prefiro não saber.

O sorriso se foi. A mão, recolhida.

Eu acordei na minha cama. Vazio.

Lá na encruzilhada ele ficou, sabendo que em algum momento eu voltaria e, quem sabe, nesse momento eu não acreditaria nele.

6 Comments
  1. Uauuu! Respirando fundo, aqui, para refletir sobre tudo isso
    Grata, Gu…. Brilhante artigo!

  2. Para bom entendedor, muitas palavras não bastam. Há que sentir.
    Boa, Gustavo!

  3. Reply
    Monica Moreira Pereira 22/07/2014 at 12:01 PM

    Explendido . Acho que todos nós temos estes encontros ,só que nem todos lembram ou sabem expressar tão sabiamente . Puxa , que encontro heim…Adorei . Gratidão , Gustavo .

  4. Muito bom… há que se sentir, refletir e relembrar… sensação de reconhecer informações jamais ouvidas nesta existência… Obrigada!!! 🙂

  5. É… para unir derradeiro e primeiro é necessário estar ávido de origem. Resumindo em sensação “não-sei-que-de-nostalgia”… Ārdrā

  6. Reply
    Uiara Andriewiski 24/07/2014 at 10:19 AM

    Nossa!!!

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