Meu coração

Texto: Iara Bichara | Ilustração: Gisele Caldas
 

Ilustração: Gisele Caldas®Primeiramente, quero deixar bem claro que meu coração é um ser totalmente independente de mim.

Por mais que eu tentasse dominá-lo, ele sempre conseguiu escapar dos meus mandos.

Imaginem que ele, além de bater – sincopadamente e incessantemente – pulsa, baila, dança, chacoalha, rebola, encolhe, expande e muito, muito mais, dependendo da situação.

Ah, como seria bom se ele fosse constante e se limitasse ao compassar das pulsações…

Mas, qual o quê! Ele é um eterno mutante que se deleita com os vai-e-vem dos humores e dos estímulos, aproveitando todas as oportunidades que aparecem para me mostrar que ele está lá, mas que eu não o controlo.

Às vezes ele ri de mim e me provoca, noutras ele se faz de desentendido e se recusa a me ouvir, quanto mais, me obedecer.

Assim que comecei a detectar suas teimosias e – isso já faz muito tempo – tentei condicioná-lo às ordens de uma grande amiga minha, a Razão, para que ela terminasse com sua rebeldia.

Esforços feitos em vão. Então, imaginei que o melhor seria deixar que o tempo lhe desse o juízo necessário.

Durante um bom tempo, coloquei o malcriado de castigo e não lhe dei importância. Cada vez que ele me chamava, eu fingia que não o ouvia e, de propósito, o contrariava.

Mas ele não se incomodava com as minhas birras e prosseguia em suas tentativas de inverter as situações e se apoderar da minha razão.

O tempo passou e decidi não fazer resistência às suas pressões, se não fosse para agradá-lo, ao menos para preservá-lo do enfarto iminente. E aí percebi que, atrás daquele comportamento instável havia uma grande chance de aprendizado, que talvez eu estivesse desperdiçando.

Passei a olhá-lo com mais cuidado e verifiquei que todas as vezes que não o ouvi, invariavelmente, acabei me envolvendo em situações que me causaram muitos desconfortos. Nós nos reconciliamos, pedimos desculpas um ao outro, eu pela minha surdez seletiva ou pela minha cegueira proposital e ele pela sua insistência exagerada que quase o levou à falência. Também selamos num forte abraço o nosso compromisso de nos ajudarmos mutuamente e mantermos o carinho.

Sei que ainda tenho muito a considerar, especialmente no que diz respeito às minhas vontades e desejos. Mesmo não entendendo bem todas as suas mensagens, começo a distinguir alguns de seus códigos. Suas artimanhas, suas senhas, seus avisos, seus devaneios, insistem em brincar de esconde-esconde comigo, embora eu tenha me determinado a persegui-los incansavelmente.

Desde que entendi que a sua liberdade de ação é o que me protege dos monstros que crio, em companhia daquela minha amiga já citada anteriormente – a Razão – tento refrear o meu ímpeto de controle, só que nem sempre alcanço o êxito necessário.

O que sei é que, a cada tentativa minha bem sucedida, ele se alegra e expande sua capacidade de amar. Quando acredito que chegamos ao limite máximo, lá vem ele me provar que podemos ir além e inventa um novo ritmo, uma nova batida, uma nova dança.

Oh, coração rebelde e misterioso, fonte de minhas inquietações e também de minhas dádivas, que me faz reconhecer o quanto de ti sou dependente, se um dia te cansares de mim, não me avise, abandone-me de repente e vá brincar com as estrelas!

Seja Luz!

Comments

  1. Fatima Pedro

    Esplêndido!!!! Grata por compartilhar as suas mais íntimas emoções. Me senti conversando com o meu….. entrei na dança.
    Grata, querida!

  2. zeneide

    E quem de nós já não se pegou fazendo o mesmo …..tentando controlar o que incontrolável…. “Mas, qual o quê! Ele é um eterno mutante que se deleita com os vai-e-vem dos humores e dos estímulos, aproveitando todas as oportunidades que aparecem para me mostrar que ele está lá, mas que eu não o controlo.” gratidão!!

  3. Claudia Sampaio

    Gisele, pauso meu olhar nos seus desenhos para gravá-los na memória e absorver a harmonia que trazem. Alinhamento instantâneo. Gratidão, Querida <3

  4. Cleusa Xavier Nogueira de Castro

    Um lindo texto! Maduro, consciente e repleto de poesia. Parabéns! Obrigada por compartilhar conosco essas sábias reflexões!

  5. Alexandre Luiz Magno

    Sabias palavras, uma linda visão do amor decorrida pelo enorme coração.
    Parabéns Iara e também a afinada e delicada percepção de imagem.
    Adorei Gisele, arrasou! 😀

  6. Uiara Andriewiski

    Iara…nem sei como lhe falar mas só tenho a agradecer por saber que não sou só eu que luto e reluto com o meu coração…então vou continuar tentando perceber o que ele diz.

  7. Claudia Dantas Fonseca

    Querida Iara,

    Ao ler e receber este artigo como um presente amoroso ,; Percebo que o “Seu Coração” é uma parte do meu e quiçá de muitos..
    Possamos nós, acolher , a apreender aceitar, reconhecer e conviver harmoniosamente com nossos corações para bailarmos por esta existência em pura e constante sintonia com a Fonte.
    Grata

  8. Neuza

    Absolutamente fantástico! Só que já alcançou a maestria na vida tem esse diálogo solto, leve com o coração. Gratidão.

    “A razão torna-se não razão quando separada do coração.” C. G. Jung