Lágrimas

Texto: Gustavo Andrieviski | Ilustração: Gisele Caldas

Ilustração Gisele Caldas

Ilustração Gisele Caldas

E lá estavam, sentados em um bar, discípulo e mestre.

O rapaz pedira aquele encontro, pois se encontrava um tanto inconformado com a insistência do mais velho para que ele mantivesse a rotina de treinamentos, meditações e tarefas com afinco e, ao mesmo tempo, frustrado por não encontrar no seu dia a dia a energia necessária para alcançar seu objetivo.

“Mas eu me dedico o máximo que posso, sigo todos os passos as vezes por semanas e de repente, tudo se perde: perco um dia e é como se despencasse do topo de um edifício, ou como se uma montanha de cartas desabasse. Fico imediatamente desanimado e gasto uma quantidade enorme de energia pra reestabelecer a rotina de treinamento”.

Ali naquele bar , com música alta, bebidas e falatório, é difícil imaginar o que levara o mestre a escolher aquele lugar pra aquela lição.

Meu filho, A Fonte um belo dia percebeu, ou decidiu (na verdade para a Fonte os dois são, provavelmente, a mesma coisa) que poderia se manifestar e resolveu estabelecer “A Criação”. Concentrou sua atenção e com todo o cuidado criou Ilhas de Luz, superuniversos, galáxias, universos maiores contendo outros menores, constelações, supernovas, estrelas marrons, vermelhas, amarelas, sistemas solares, planetas, água, natureza e vida, tudo isso manifestado em múltiplas dimensões. Cada uma delas fruto da sua profunda atenção, cuidado e dedicação. As órbitas, as colisões de cometas, a energia emanada por cada uma de suas estrelas, o movimento das galáxias, a metamorfose, a fotossíntese, a evolução, as relações energéticas, cada detalhe calculado para que a criação expressasse toda a beleza do Amor que Dela transborda sem parar.

Então, ela contemplou a obra e chorou.

E em cada lágrima ela se individualizou e suas lágrimas vêm transbordando sem parar, se espalhando pela Criação, se tornando criatura e habitando todos e cada um dos reinos e dimensões de sua obra.

Em um ponto dessa criação, em uma dimensão específica, a Fonte decidiu que suas lágrimas ali experimentariam a irresponsabilidade. E aqui nós estamos. Vivendo o desejo da Fonte de experimentar “o que é não ter que prestar tanta atenção assim”.

Após o que entendemos como “o passar do tempo”, começamos a lembrar: “Somos A Fonte”. E uma saudade inexplicável começa a tomar o nosso peito, uma sensação de que precisamos voltar pra casa nos abate. Buscamos o conhecimento de outros que viveram a mesma sensação e que podem nos mostrar o caminho e assim surgem as religiões, os mestres e os discípulos, todos expressões da mesma coisa, Lágrimas da Fonte, sedentos pelo caminho de volta.

E assim, a mesma energia, a mesma atenção, o mesmo cuidado e dedicação que a Fonte dispensou para nos trazer até aqui é necessário para trilhar o caminho de volta. Energia, Atenção, Cuidado e Dedicação são fatores que se reúnem em uma manifestação: Disciplina.

Manter a disciplina é a primeira oportunidade que se nos apresenta de sermos como a Fonte.

E lá naquele bar, naquele mar de irresponsabilidades conjuntas, o discípulo pode observar o barman, com todo o cuidado preparando um drink de cores belíssimas, o músico expressando com perícia e sentimento os acordes de uma canção, o casal dançando com passos treinados em várias horas de aulas de dança, tudo aquilo, toda aquela energia, fruto da atenção, cuidado, dedicação e disciplina daquelas pessoas.

Todas elas, Lágrimas, aprendendo a ser Fonte.

11 Comments
  1. Sem palavras…
    Mantendo a disciplina, pra achar o caminho de volta.
    grata pelo texto Gustavo e pela lembrança ilustrada Gisele.

  2. Sem palavras… Só gratidão por vocês dois, Gustavo e Gisele! ❤❤
    D E M A I S !!!

  3. Príncipio do Caos, não é mesmo?
    Lindo texto, como sempre!
    Sou fã desses dois!
    Grata.

    Jo Ludwig

  4. Nada pode ilustrar melhor meu comentário do que o significado do seu nome. Gustavo quer dizer “protegido por Deus”, ou ainda “convidado glorioso”. E você, querido Gustavo, honra o nome que lhe foi dado transmitindo tanto amor e conhecimento nos seus atos. Este seu texto é de uma grande delicadeza e sensibilidade, mas guardando a força de um ensinamento sublime. Sou muito feliz por tê-lo por perto, neste momento e neste agora e poder privar de sua participação neste grupo, como “convidado glorioso” que é! Beijos de carinho e respeito por sua sabedoria partilhada!

  5. Reply
    Uiara Andriewiski 24/06/2014 at 3:12 PM

    Que emoção…GUSTAVO…um dos nomes que mais gosto e com o qual seu pai conseguiu me despertar após o parto dizendo: acorda Uiara, acorda, o Gustavinho chegou…
    Sei que fomos apenas simplesmente um mero caminho, mas muito gratos por tudo isso.Beijos com AMOR.

  6. Reply
    Uiara Andriewiski 24/06/2014 at 3:14 PM

    Gisele, como já lhe disse pessoalmente, reafirmo…parabéns, seu trabalho é lindo!

  7. Nunca a palavra D i s c i p l i n a foi tão docemente e iluminadamente explicada . Sempre ela vem acompanhada de criticas,censuras , broncas …ops nada disso ..Amor profundo nestas palavras . Gustavo , nosso poeta da Luz . E nossa Gisele , que delicia de desenhos.

  8. Reply
    Renilda G M Freitas 26/06/2014 at 10:44 PM

    Que texto maravilhoso . Nunca havia entendido disciplina com tanto amor . Obrigada Gustavo e Iara pelos ensinamentos .

  9. Reply
    marilda benevides 06/07/2014 at 4:26 PM

    Disciplina na minha vida espiritual…preciso tanto!

  10. Reply
    Renilda G M Freitas 07/07/2014 at 9:48 PM

    Que texto maravilhoso . Gratidão por ensinar de forma tão brilhante a o valor da disciplina .
    Não me canso de relê-lo.

  11. Reply
    Cleusa X. Nogueira de Castro 25/09/2014 at 7:36 PM

    É, Gustavo, me emocionei… Encontrei alguém que sente a mesma dor e a mesma saudade que sinto, em dias em que a Fonte me faz perceber o quanto sou uma de suas pequeníssimas partículas e, então, quero voltar para casa (só não sabia que essa partícula poderia ter origem numa lágrima da Fonte. Isso é poético!) Admiro-o! Seja Luz!

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