A ilusão dos opostos

Texto: Gustavo Andrieviski | Ilustração: Gisele Caldas

Ilustração Gisele Caldas

Ilustração Gisele Caldas

Enganados pela posição do Sol e da Lua, ansiando pelo calor e pela luz que proporciona vida, faz crescer o alimento e nos permite enxergar o mundo ao nosso redor, temíamos a noite que com sua escuridão nos forçava ao olhar interior. Mas o que realmente temíamos?

Esse conflito que nos aflige na dualidade, que nos faz enxergar que para tudo há um oposto, alimenta a ilusão de que a paz é o oposto da guerra.

Nossos corpos e mentes, infectados pela genética bélica de antigos povos estelares, insiste em procurar um vencedor, uma solução, uma conquista. Por que buscamos constantemente pelo desfecho, pelo fim da história, que sem ele parece incompleta preferindo isso, ao invés de permitir que ela seja eterna?

Vinha descendo a trilha num fim de tarde perfeito. O dia ainda claro apesar de ser mais de oito da noite, os raios do sol poente ainda tocavam o alto das colinas que me cercavam. Em mim, paz.

Numa curva eu o vi, e ele, já havia ouvido meus passos muito antes que eu o percebesse. Um veado, como aquele da história de Walt Disney. Eu parei um segundo, admirando a beleza de ver de tão perto e em liberdade um animal selvagem. Imaginando quão mágico seria passar perto dele e tocar sua pele.

Em mim, paz.

Nele, instinto de sobrevivência.

Eu pensei, desejando profundamente que ele me entendesse: ”Eu não sou uma ameaça pra você”.

Ele fugiu.

Na minha genética, no meu cheiro e no meu desejo de me aproximar e invadir o espaço desse ser, mesmo que para acariciá-lo, só o que ele sentiu foi “predador”.

E eu entendi. Eu não sou ameaça para ele enquanto eu não sentir fome e ele for o meio de saciá-la. Enquanto eu não aprender que espaços são para ser respeitados, não importa quais sejam suas intenções.

Minha existência naquele momento interrompeu a perfeita paz daquele belo ser que eu só desejava admirar. Em mim, desejo.

Então eu acreditei por um instante que o oposto da guerra, do conflito, da vitória, da busca por uma conclusão é a extinção de tudo que me faz humano.

Mas e se eu puder juntar o Sol e a Lua? Se eu deixar de acreditar que um deles é bom e o outro não? Se eu buscar em mim o que eu realmente sou e não esse subproduto da engenharia genética dos “deuses”?

Eu termino de escrever essa frase, e sinto que existe um lugar em que o animal e eu somos o mesmo; que sua pele é a minha e que sua paz é a minha felicidade. Em nós, paz.

11 Comments
  1. Na unidade do espírito Santo Amém.

  2. Reply
    Valéria de Carvalho Pereira 10/06/2014 at 9:42 AM

    Em mim, paz… pleno do todo sem julgamento. Grata!!!

  3. Linda reflexão….ainda mais nos tempos de conflito que a todo instante nos aparace….que possamos sentir em nós Paz….

  4. Bom dia. Super insight!!! 😉
    Por favor, permita-me corroborar com poesia filosófica ancestral.

    “A existência está além do poder de definição das palavras.
    Podem-se usar termos, mas nenhum é absoluto.

    No começo dos céus e da terra, não havia palavras.
    As palavras saem do ventre da matéria.

    E se o homem, desapaixonadamente, vê até o âmago da vida,
    ou apaixonadamente
    vê a superfície, o âmago e a superfície são os mesmos,
    e as palavras só os fazem parecer diferentes
    para exprimir o aspecto.

    Se for preciso um nome, que o nome seja assombro, e daí,
    de assombro em assombro,
    abre-se a existência.”

    Lao-Tsé

  5. “Eu termino de escrever essa frase, e sinto que existe um lugar em que o animal e eu somos o mesmo; que sua pele é a minha e que sua paz é a minha felicidade. Em nós, paz.” – Que lindeza e sincronicidade, Gustavo. Gratidão.

  6. Gisele, que delicado este desenho, uma informação (=energia) em CADA detalhe. Gratidão mais uma vez! Abraço tímico. 😀

  7. Que sincronia linda do texto e desenho. Brincar de bolha de sabão envolve uma delicado escolha entre a paz que proporciona ver as bolhas flutuando ou o prazer de tocá-las, mas assim extingui-las.

  8. Que lindo insight, Gustavo! Somos um! Gratidão! Lindo desenho Gisele! Abração de luz a todos!

  9. Gustavo, que riqueza de texto: Sensível, profundo, amoroso e alinhado. Gratidão por existir neste tempo e neste agora!
    Gisele, cada vez mais delicada e refinada sua ilustração: beleza pura e cristalina.
    Beijos de luz aos dois queridos do Rio.

  10. Em n’os, PAZ. ✨

Leave a reply

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Unaversidade