A armadilha tecnológica

TecnologiaPor Gustavo Andriewiski

Naquele tempo éramos crianças.

Nossas arminhas de brinquedo faziam “pchiuunnn” disparando o laser fatal que nunca acertava o nosso adversário, que devolvia imediatamente com um disparo semelhante.

Viajávamos em naves imaginárias, inspiradas em seriados de TV e filmes de cinema, feitas de combinações de almofadas e lençóis, tudo com a mais moderna tecnologia: comunicadores que carregávamos no pulso, onde enxergávamos uns aos outros instantaneamente, teletransporte, e depois de 1977, espadas lasers e poderes sobrenaturais.

Por vezes, erámos espiões em carros mirabolantes que atiravam, tinham um mapa que localizava qualquer lugar no mundo no painel e, imagina só, andavam na água.

Nossas brincadeiras estavam permeadas de uma tecnologia imaginária que hoje é real em vários níveis.

Hoje temos os possantes intercomunicadores da série “I”, carros com GPS que conversam com a gente e que ouvem nossos comandos apesar de ainda não responderem quando agradecemos pelo aviso de que estamos acima da velocidade. Temos protótipos de carros que voam ou que navegam.

Hoje, no mundo virtual dos vídeo games, tudo é possível, e é tão fácil perder-se nessa realidade onde encontramos aquilo que buscávamos em nossas brincadeiras infantis.

Hoje, no dia a dia das redes sociais, somos o que quisermos, num esforço constante de protagonizar uma vida repleta de sucessos, alegrias e fotografias perfeitas tiradas por ninguém mais que nós mesmos, num exercício de solidão acompanhada, esperando, em vão, ouvir o amigo, escondido atrás da pilastra, fazer “pchiunnn”.

É fácil olhar pra esse mundo e não ter muita esperança.

É fácil perceber o quanto nos deixamos levar pela noção de que só existem protagonistas, afinal quem é que sabe o nome dos assistentes do engenheiro Scotch, aqueles que vivem morrendo quando a Enterprise é atingida?

É fácil perder-se, mergulhados até o pescoço no mar tecnológico que imaginávamos quando crianças e esquecer de porque gostávamos tanto daquelas armas lazers e comunicadores com telinha.

Um pouco mais complicado é compreender que a vida é feita de grandes figurantes e, por mais sem graça que isso pareça, os figurantes vivem a aventura, do mesmo jeito, protagonizando suas vidas sem que ninguém veja.

Enquanto a maior parte da nossa geração segue amortecida pelos efeitos da tecnologia com a qual brincávamos, sinto levemente no ar, que nossos filhos e netos irão rapidamente escapar dessa armadilha e retornar ao verdadeiro objetivo de toda essa brincadeira: “Explorar novos mundos, pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo, onde nenhum homem jamais esteve.”

E viva a aventura!

5 Comments
  1. Que post feliz. E é verdade… nos distanciamos tanto, imersos e entorpecidos na nossa tecnologia artificial, que alguns mais lúcidos já inventaram espaços, grupos e escolas que relembram como ERA brincar. Porque sentem nos pequenos o cerceamento que criamos. Por necessidade mesmo – imaginem que brincar hj em dia é considerado um luxo, privilégio. Tem pais das gerações mais recentes que nem experimentaram quando crianças outra forma de ser e se aventurar. Gratidão, Gustavo ❤ Adorei.

  2. E perpetuamos esta DESventura como adultos tb. Muitos de nós, vivendo num faz-de-conta egóico e sem sentido. Com medo de nos aventurarmos de verdade, de vivermos. Grata pela reflexão, Gustavo 🙂

  3. Sim , Gustavo , brinquei muito, fui uma moleca bem danada , hoje vejo meus netos brincando diferente , mas com a mesma alegria infantil .

  4. Belo artigo, Gustavo! Brincar é necessário para que não se perca a possibilidade de exercitar a realização do sonho. Grata.

  5. Muito bom Gustavo, nos leva a uma viagem muito boa ao tempo de criança…. Gratidão

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